Canto Eterno

Ecoando lógicas cores
Entreato, nobres cantores
Soam missas clássicas, dores
Encontrando ternos amores

Sinto, ecológicas flores
Quem ora pro nobis, senhores?
Pulso firme, punho cerrado
No caminho torto e arado

Eco! As cigarras sibilam
Pela mata em coro afinam
Solo um vaga-lume apaga
Meio-diminuto se cala

Mas no fim um canto ecoa
Cada vez mais longe ela voa
Para onde vai leva sorte
Lá não há tristeza nem morte.

À memória de Vovó Filha


Tecido a Retalho

Prefiro um grito pra sentir com bem verdade
Do que o silêncio de mentir ser educado
Porque a distância entre o falar e o que se cala
É a escolha entre ficar ou se partir

E quando parte não carece ser colado
Porque costura  nem retalho hei de cingir
Se um belo grito for sincero enamorado
Só quem sussurra espantado é quem fingir

Enquanto escuta, cala, fala internamente
Tecendo a ponte que por terra vai cair
Não tem costura nem remendo fingimento
A carapuça se te serve é por aí.

Posologia

O que não tem remédio, remediado está
O que não mata, fortalecerá, será?
Tão fácil na dor de cabeça ir comprar
Uma mágica poção encapsular

Se tem remédio, irá passar
Um passe, quem sabe, resolverá?
Na cabeça uma solução
Discreto soluço, choro

Conta-gotas, lágrima
Não tem remédio, nem fortalecerá
Enquanto não compassar
Tic-tac, tum-tum, tim-tim tom

Mar!
Tem na bula
Não bula
Só vai piorar.

Fotografia 3 - Encontro (vôo)

Envolvido, relaxado, o anjo em sonho e o corpo alado partilham asas, tecem nuvens onde possam caminhar. O ser que sonha encontra abrigo em ações minuciosas, espontâneas, cuidadosas... Furtivos gestos que transportam entre olhares, sobre um arco, por detrás da íris, ares, eros e a flecha que lançou. Tudo em si deflagra em brasas, flecha, arco e o arqueiro sempre alado, até mesmo o ser sem asas despe a sua carapaça, se liberta da couraça, amolece a armadura, se propõe ser terno e cura, porque mesmo sem procura já entende o que encontrou.

Fotografia 2 - Asas (movimento)

Os pés que relaxam sobre a nuvem, lentos, repousam à mercê dos ventos. Um sopro sibilante que às vezes, mesmo muito distante, arrepia todos os pelos, cada fio de cabelo. Desperta o corpo, se levanta, revela infinitas penas que brotam bem no meio das costas e se abrem num enorme par de asas profanas. Carregar asas assim carece força sobre-humana. Mas voar... Ah! Voar sem medo, sem pudor, vale o desafio, a dor, o amor! Vale conquistar o mundo e até se deparar com as mãos geladas e o leve tremor dos lábios mordidos, avermelhados, de outro ser angelical. O corpo alado pode agarrar o anjo que não voa, envolvê-lo sem pena no meio das suas asas, junto ao peito, e mantê-lo assim bem abrigado, quente, embriagado, ambos soltos, relaxados.

Fotografia 1 – A Nuvem (silêncio)

Os pés que caminham sobre a nuvem, lentos, sentem cócegas com os afagos de algodão. Os pés quaaase flutuam, tocam assim bem de levinho os alvos novelos e, tão felinos, de repente sustam o passeio. Parecem empurrar delicadamente a nuvem... Que permanece com o tecido íntegro! Trançada como fios de cabelo entre os dedos. Após repentina pausa, a misteriosa silhueta deita e, vértebra por vértebra, o corpo serpenteia, se deixando transpassar pelos afagos de algodão. Faz cócegas, penteando cada pelo, soprada por algum vento, a nuvem toca assim bem de levinho até a raiz dos cabelos, emaranhada, se entrelaça desde os dedos, dos pés que relaxam, lentos.

Céu da Periferia

Feroz esfera incandescente
Candeia laranja e indecente
As águas da baía, fita
Escorre sobre a palafita

E do lado oposto bela esfera
Sobe cintilante à espera
Com andorinha voando rente
E avião rasgando lentamente

N(O) CÉU DA PERIFERIA

Será que se encontram? Um dia...
Final de tarde primaveril
Entre um violeta raio vil
Ardendo em febre, céu anil

Mas à espreita ali embaixo
Dão sua vida, chove bala
Livre comércio, trânsito para
E o alvo tecido melado odara

Cobrindo a palha, cheirando a doce
Chupam os dedos, quem dera fosse
Lambem os beiços nessa quimera
Dourado azeite e... Ah! Quem dera? 

N(O) CÉU DA PERIFERIA.

Quelônio

Esse chão...
É solo sagrado
Quelônio, pegada
De firme pisada
Pé de planta que cura
Pede fruta madura
Piranga, Ajapá
Quatro pés, andar arrastado
Curioso, apressado
Olhou pra Lagoa e viu, riu
Do rio da bacia do lado
Refletir segredos, sonhar
Sagrado, esse chão é solo, é mãe
Punhado de (a)mar.

Amaro

Que há nessa caixa?
Que em mim não encaixa
Que assim encaixota
Em si na xoxota

Há! Prende menino
Fecha o elo em copas
Não cabe menina
Ness'escuras corpas

Só cala-te boca
Que há nessa caixa?
Douradas vergonhas
Que a múmia enfaixa

Só falo na caixa
Que a ti encaixota
Agridoce amaro
Se agride, enxota.





Na Trave

Bateu na trave
A trave trava
Trava essa língua
Deixa de entrave

Bateu na trave
Travou batalha
Água da calha
Fogo nas ave

Depena branca
Cozinha em brando
Tempera têmpora
Delineando

Bateu na trave
Travou na pose
Maria, ave!
La vie en rose.

A serpente

A serpente de escamas coloridas
Furta-cor
Rouba o tempo ensolarado
E a mim toma de assalto
Aiai, ioiô

Se reparte o céu primário
Dois pedaços não-binários
Causa espanto em toda gente
Há quem fique indiferente
Mas não ficou

A serpente surpreende
Ao abrir os seus caminhos
Tem quem espie o despontar
Desde o desapontar
Aguaceiro que caiu

Caiu, mas levantou
Na rasteira se arrastou
Roubou só o que era seu
Quem mandô pegá, pegô?
Dê meu arco e minha cabaça
Dê que eu vou tocá, decá
Arrobobô!

Guerreira, eu?

Guerreira
VOCÊ pode, VOCÊ consegue
Sozinha!
Assim vamos forjando
Guerreiras
Que não podem, não conseguem
Nem se descansar em paz
Ou "ajuda" pra cuidar de tudo e todes
Dizer NÃO no seu limite
A "guerreira"
NÃO TEM LIMITES
Tudo pode, nem reclama
Pensa positiva-mente
A guerreira é tipo assim...
Uma santa, né?
É ser forte, resistente
Estudando, na empresa
E em casa fazer milagre
Manda flores pra guerreira
Ensaiando enquanto é viva
Respirando entre os espinhos
Reza e faz um tanto além
Se a pessoa vive em paz
Não quer guerra com ninguém.

Quer que eu desenhe?

Onde você mete o seu preconceito cultural?
Na dança, na música, nos muros da cidade
Onde você enfia o seu preconceito cultural?
No jeito de falar de quem escapa das normas
Mete o pau nas roupas, na falta delas
Enfia o dedo na ferida das corpas que rompem padrão
Onde? Por não gostar, não se identificar, não se afinar
Com formas outras de expressão, de brincar, de fruição
Quando não se parecem com o ideal eurocêntrico, cristão...

Sabe? Ninguém é obrigade a gostar das mesmas coisas
Mas respeito é bom e todo mundo gosta, né não?

Se não é igual ao que você aprendeu
Ao que te ensinaram ser bom, bonito, superior
Ao que você busca para si, por acreditar ser o melhor
Não vá dizer que o diferente não presta, viu, pai?
Em sua terra tem gíria? Na minha também tem
E por aqui quem é mãe não tem nome
Quem não é chamam também
Até quem é filha é mãe(zinha), é paizinho, painho, mainha
É meu vô, minha vó, é vô(inho), voinha

Vambora fazer o nosso e deixar a vida duzôto, véi?
Tendeu bê, viu coisinha?

Métrica Desmedida

E já nasce cancelada
Mendigando engajamento
Mulher negra, mãe, rebento
Desarmônica vê!nus eras

Vai vivendo cancelada
Contraria os algoritmos
Solo sobe nesse palco
Ginga o caos de las esferas

Sobrevive cancelada
Quem te curte? Me diz like
Comentou capa(cis)tista
Viraliza no momento

Trans'ferir ressentimento
Se for bom poucos se movem
Storinha "inocente"
Ecos, egos, elos morrem.

retiSente

Adoro umas reticências
Aqueles três pontinhos
Um ao lado do outro
Que sinalizando "quase" nada
Significam muito

Ai, adoro umas reticências
Saber que em algum lugar do texto
Existe um portal
Que nos permite
Imaginar o que não está escrito

Reticências são
Como aquele momento
Aonde sonhamos...
E de repente acordamos
Sem traduzir o indizível

E é por isso que eu adoro
Ah! Como eu adoro as reticências
É o direito de sentir
De não precisar dizer
E até de desdizer o que já nem foi dito.

Espinheiro de Natal

É
Amor
Reciprocidade
Ao herdarmos a "culpa" do cristianismo
(aqui não me refiro a Jesus, o Cristo)
Porque devemos/queremos a todo custo parecer bons
Confundimos amor com obrigação, com apego
Com EGO
Amor não é presente, é presença
É respeito, cuidado
AUTORESPEITO, AUTOCUIDADO
Amor-próprio também é amor!
E começa por aí.
Não inveje, não critique, não julgue!!!
Reflita sobre as suas crenças limitantes
Preconceitos
Não discrimine
Você pode, você consegue?
Amor não é sobre a SUA opinião
Ou projeções das relações de poder
Não é sobre o que VOCÊ idealiza sobre outrem
Que por mais santificado(a)
Também jaz crucificadE
Amor é como você se sente nos lugares aonde vai
E com quem deseja estar (sem fingimento)
Refletindo, praticando TUDO isso
E não somente por uma noite/dia
Mas também!
Amor é responsabilidade
Consigo e com as outras pessoas por extensão
Faça SEMPRE escolhas conscientes
Não importa em qual religião, tradição, arranjo familiar
Por um Natal + inclusivo e menos indigesto
Amor é
RE
CI
PRO
CI
DA
DE


(Ver versão para web)

O Fantasma do Espelho

O fantasma do espelho não consegue dormir.
Acordado e tentando sair do mergulho abissal no lugar mais sombrio de mim.
Lugar onde em algum momento sempre se acaba voltando...
Não é um lugar de onde se consegue sair facilmente, pois, na madrugada, escura, solitária, é um lugar familiar e é só MEU. Com todas as memórias mais dolorosas, mas ainda sim seguras. Não tem música, somente vozes já ouvidas, palavras proferidas por outras pessoas. É protetivo, porque as memórias, apesar de muito tristes, são reais, de quando deixamos de fantasiar ou acreditar em sonhos e nos deparamos com os fatos e pessoas como elas são de verdade, inclusive nós, então não há possibilidade de novas decepções nesse lugar. Não cabe o que nos fizeram acreditar ou o que gostaríamos que fosse verdade, cabe apenas desilusões, desenganos que, mesmo com tamanho peso, têm a beleza assustadora do que ou quem deixou de usar máscaras. O "abismo" não nos julga, nos puxa de volta, porque o mundo de fora é demasiadamente ilusório, com estruturas desgastantes. Contudo se eu não transitasse entre esses dois mundos, eu não teria os canais abertos para criar, escrever, compor, interpretar. O abismo, poderoso, contém as lembranças de quem em algum momento desiste de nos acompanhar, proteger e uma vez estando lá podemos SER sem medo de desagradar, se esconder, tentar respirar, fugir da rotina que nos sufoca e das coisas que nos obrigam a fazer, sistematicamente, nos roubando das outras que necessitamos visceralmente materializar!

Contra Ação - Relaxamento

Tem hora que o peito distrai
Cansado a bater sutilmente
O tempo que já foi algoz
Sem pilha correu calmamente

Que faz sem ter tempo a resposta?
Pergunta tem tempo de sobra
Na falta lá sabe o que mostra
Se perde cá inultimente

Faz figa, o pulso, a algema
Se vai, o anel finca o dedo
Magoa quem já tem ferida
Se fecha o punho com medo

Um ritmo incerto batuca
A voz desafina no peito
Relaxa! O pedido ignora
Se cala, desiste sem jeito.

Contração

Tem hora que o peito contrai
A força do aperto é tão grande
Cá dentro ficando pequeno
Do tanto que o peito se trai

Se trai sem ter hora marcada
Se atrasa bem pontualmente
Cá dentro em meio segundo
Bagunça o tempo da gente

Tem hora que o peito é contente
Sorri bem de leve, brincante
Mas pesa e assim de repente
Se fecha em si tão arfante

Se fecha, se trai, se contrai
O peito importunamente
Lá dentro mal sabe o que faz
Tristeza atrai claramente.



Germinando

Em seus olhos água
Água de ti transborda
Transborda, se derrama
Por fora e dentro de mim

Em sua pele água
Água de ti transborda
Transborda, se derrama
Por fora e dentro de mim

Em sua boca água
Água de ti transborda
Transborda, se derrama
Por fora, dentro de mim

E dentro de ti deságua
Desemboca, língua, palato
Umedece afim no mato
Quando o grelo aflora enfim.