Quereres

Quero ter sinceridade
Ser além dos acessórios
Ilusórios, utensílios
Quero ver atrás dos cílios
O olhar que me seduz

Ler, sentir... Sem esse cheiro
De fumaça, candeeiro
Seu poema de encomenda
Quem quiser que compreenda
Continue com seus vícios

Remendando cada rima
Dos versinhos de criança
Porque ser simplório cansa
Preto, branco, multidão
Fuja! Escravo do padrão.

Árvore de Natal

Paz
Amor
Confiança
Consciência
Companheirismo
É natal um prato cheio!
Malcriados, acreditem na existência
Papai Noel continua trazendo presentes
E para aquelas crianças grandes uma mensagem
Oxalá todos reflitam e se alegrem à sombra da árvore 
Pois, ainda que ocultos, amigos, no solo da vida plantamos
Respeito
Gratidão
Verdade
Justiça
União...
Assim amadurecemos, sê mente, fruto nessa árvore de natal.

Vontade

Que vontade de ser olhado
Vontade de ser ouvido
Deixo-me rimar à vontade
E a vontade fazer sentido
O raso já se faz profundo
Vou então bem lá pro fundo
Usando meia palavra
Em todo verso calado
Cada estrofe é um grito
Ousado, lambuzado
Prestes a ser sentido.

Silenciosa

Quem puder amar
Que ame um livro!
Ou algo parecido...
Faça uma leitura
Si-len-ci-o-sa
Ame calada
E ame o som
Que ele não faz

Quem puder amar
Que ame uma caixinha
De música!
Si-len-ci-o-sa
Ame o reflexo
Da porcelana
E a luz barroca
Que ela faz.

Orquestra Castro Alves

Oca é uma habitação típica dos povos indígenas, a palavra tem sua origem na família linguística tupi-guarani. A oca é construída coletivamente na tribo, é grande, podendo chegar até 40 metros de comprimento, tamanho justificado, pois várias famílias de índios habitam uma mesma construção. A estrutura da oca é bastante resistente, pois é construída de taquaras e troncos de árvores, com cobertura de folhas de palmeiras ou palha.

Uma oca vem sendo construída com a participação e orientação de vários integrantes do NEOJIBA. Apesar de suas famílias não estarem completas ainda, dentro em breve essa oca será grande, com todos os instrumentos necessários, pois é experimentalmente pedagógica. Seu nome? Orquestra Castro Alves. Não somente por lembrar na história do projeto sua primeira morada – o importante teatro de Salvador, situado em frente à Praça Dois de Julho – mas por homenagear um dos maiores nomes da literatura brasileira: o baiano Antônio de Castro Alves, o poeta dos escravos, do povo e da liberdade.

A oca sinfônica é jovem!

Como escreveu Jorge Amado:
"Seja onde for que haja jovens, corações pulsando pela humanidade, em qualquer desses corações encontrarás Castro Alves."

E no coração de Castro Alves, certamente encontramos música.

Novembro de 2009

Ijexá

Dentre os africanos trazidos ao longo da primeira metade do século XIX estavam os que falavam yorubá. Estes, chamados nagôs na Bahia, vieram do Sudoeste da atual Nigéria e foram as maiores vítimas do tráfico transatlântico nos anos que antecederam sua proibição definitiva, em 1850. Os nagôs alcançaram a marca de quase 80% dos escravos africanos em Salvador na década de 1860.

Em sua viagem forçada os falantes do yorubá não trouxeram bagagem, mas nem por isso esqueceram na terra de origem sua cultura, língua, dança, música e sua religião. Uma das cidades mais tradicionais de sua história é Ileṣá, que nos tempos do império chegou a ser capital do reino de Oyó. A cidade fica situada no estado de Oṣún, sudoeste da Nigéria, e é a maior dessa região.

Dentre os tesouros trazidos na essência do povo conhecido como nação Ijexá está o ritmo homônimo que na Bahia é utilizado em cerimônias das religiões de matrizes africanas, nos afoxés e em diversas canções da nossa música popular. O significado literal de Ileṣá, de acordo com linguistas, seria "terra escolhida", ile (casa, ou terra) ṣa (escolher).

O ritmo, bem como a dança característica, é repleto de energia dos nossos ancestrais e toda essa “baianidade nagô” está presente na canção intitulada Ijexá. Sua estréia, com orquestra e coro, arranjo de Jamberê Cerqueira, aconteceu no dia 21 de outubro de 2012 na sala principal do Teatro Castro Alves, durante as comemorações dos 5 anos do NEOJIBA.


A praça é do povo
Como o céu é do condor
Declamava Castro Alves
Na antiga Salvador

Seu coração baiano
Cantava em liberdade
Hoje o nome do poeta
Volta aos palcos da cidade

Castro Alves vem tocando
Sinfonia com fulgor
A Orquestra é dos jovens
Como o céu é do condor

Sua independência
Nossa terra não perdeu
Com a Orquestra Dois de Julho
A primeira que nasceu

Quanto sonho, tanta luta
Nós ganhamos muita glória
Roda o mundo a Yôba
Semeando nossa história

Dois de Julho, Castro Alves
Mais orquestras vão chegar
A Bahia está em festa
Parabéns ao Neojibá!

Andorinha

Mesmo sem ser pago
Vá bem ligeirinho
Conte a meu amado
Nosso segredinho
Leve esse recado
Ande, passarinho!

A Fonte

Que faz o tempo, além de séculos intermináveis, horas que nunca param
E em tempos passam depressa? É a pressa, demoramos a entender
Servos das palavras, que não nos deixam dormir, acordamos
No real imaginário, da brincadeira só nos resta rir

E a fonte? Desejos que nunca secam! Moeda, dobrão de cobre é ouro
No mundo onde equilíbrio vive de cabeça pra baixo
Quer sol? Abraçaremos o fogo
Quer lua? Esse encanto tão longe

Quero nada
Escuto a entrega, deixo-me envolver
Quiçá não são fantasias
Só os desejos na fonte

Segundos demoram. Tempo, apresse seus dias
Desejo que eu te espere em meu tempo
Espero! Apressada
Sim, na fonte há prazer.

Vela

Ê barco solto no mar
Coração entregue ao tempo
Fica manso à deriva
Viaja conforme o vento

Ê barco, ê coração
Vela, santo e oração.

A Mar

Amar é
A maré
Amarela
Amar é lar
Amar, elo
Amar é
Amarelo!

Calêndula

Nenhuma resposta é precisa
Mas a língua entendida
Cálida

Para cada palavra perdida ao sabor da boca entreaberta
O olho faísca, o espelho na dúvida cai despedaçado
Tal qual a margarida em mão enamorada
Árida

Que mal me quer quem me quer bem?
Amarga ri da questão
Cai despetalada
Pálida

Renasce flor no chão.


Aiyê

O céu da Bahia existe
Nas ruas e praças, amado
É o mais belo ainda, resiste
Irrompe a manhã, rio dourado

Bem negro, é raro presente
Repleto de paz vem sem mágoa
A voz tem um timbre ardente
Percute tão forte, deságua

Seus braços, seus pés compassados
História e magia percorre
Trançados, panos transpassados
O mais belo rio em mim corre

Será eu, você? Que beleza!
Nós dois somos da Liberdade
Dançar todos vão com certeza
Cantar sempre o Ilê na cidade.

Rua Sem Começo

Numa rua sem começo
Foi cantar um passarinho
Que voou querendo pouso
Cansado de ser sozinho

No meio da rua encontra
Os versos de um trovador
Se dizendo apaixonado
Querendo ser seu amor

A paixão que nem é cega
Passando sem perceber
Espantou o passarinho
Porque bicho não quer ver

E se quer respeita o amor!
Se vem pássaro, ou jasmim
Se é poeta, gente, flor
Importante é não ter fim.

Rua Sem Fim

Se está apaixonado
Só o tempo vai dizer
Desconfio da paixão
Que passa sem perceber

Numa rua sem começo
Foi cantar um passarinho
Perdido, cheio de pena
Sem meio de achar seu ninho

Sem meio e sem começo
Do começo ao meio, enfim
Confio mesmo no amor
É rua que não tem fim.

Satori

Nenhuma poesia
Me completa
Hoje, não só
Poesia, completa-
Mente vazia
Alma sem palavra
Meu corpo é nada.

Olhares

Vi seus olhos
Estavam com sede
Vi e senti doçura, eu gosto!
Tem certas águas que a gente até sente gosto
Gosto de me ver dentro d’água, doce
Vi seus olhos, também estavam
Com as águas, doces.