Silêncio

Há sempre uma disputa, o exercício de poder, seja ele explícito ou não. Há a tentativa de minimizar, ou ridicularizar os sentimentos, as ideias, as palavras do outro. E há a imposição do silêncio, que mata sem fazer barulho algum, de vez em quando encontrando como cúmplice o estereótipo – fulano é assim – que, numa falsa ironia, carimba na pessoa um rótulo, do qual, uma vez carimbado, o impede do livre expressar-se. Uma vez que já se sabe nome e sobrenome do sujeito (o que ele faz, para que serve), que espaço tem o pobre dito cujo para dizer, redizer, ou desdizer quem é? Se a palavra tem poder, calar significa destituir o outro do poder, o poder divino de EXISTIR. Se o indivíduo pensa e logo existe, a palavra é a materialização desse pensar. Pensa e existe, fala e resiste... Cala-te! E morrerás. Há maneira mais vil de retirar o poder de existir do outro do que dizer por ele quem ele de fato é? E que constrangedor ser diferente do que dizem que somos, por respeito à imagem construída por nós mesmos. Ou não. Quem detém o poder sobre a imagem, quem projeta, ou quem interpreta? E nessa disputa vamos falando e calando, pensando que apenas por olhar enxergamos a subjetividade nas imagens, a alma nos corpos, confundindo cegamente fotografia com paisagem. Onde reside a vida existe a mudança, sendo assim nenhum registro pode descrever com autenticidade nenhum ser humano, e a ele, somente a ele, cabe o poder de descrever-se e reescrever-se, usufruindo do direito inerente e permanente da transformação.