Em canto

Na noite fria, solitária
Depois que dorme a cria
Invisível ao mundo
É ela, a mãe
Alimento, apenas
Quando o silêncio chega
Rasgando
Seu corpo
Já não existe mais
Na noite fria, solitária
Antes que acorde o mundo
Ela, mulher
Memórias, apenas
Do mundo esquecido
Na noite fria, solitária
Quando a lua se enche, distante
Ói ela, molhada
Sereia, apenas.

2.2.2018

Soneto de um amor só

Amor? Só há
Barriga cheia, berço vazio
Amor? Só há
Boca fechada, peito frio

Amor? Só ar
Barriga vazia, berço cheio
Abre boca, enche peito
Deixa o rio, amor, soar...

Nove meses, três
Dois às vezes
Nada move há seis

Amor? Só, ah!
Barriga, berço, boca, peito
Sou mais uma vez.

7.12.2017

Permitir

permitir permit ir per mi ti r

Soprando Sonhos

... Um passarinho me contou
Estava lá
E lá ficou.

Então você lê pensamentos?

Um passarinho me cantou
Tremendo lá
E lá ficou

É você soprando sonhos!

Um passarinho me encantou
Sozinho lá
E lá ficou...

Ares de Junho

Bendito seja junho
Mês que nasci
Mês que nasceu minha filha
Mês que nasceu minha vó

Mês de Santo Antônio, São Pedro
São João,
Bendito seja Junho!

E suas típicas
Cores e Comidas
Cores e Licores
A lua fica rodeando...

Todas as luas. Todas.

Amados sejam os caranguejos
Que beliscam e não largam
Com olhos de água do mar

E as gemas gêmeas
Sereias...
Gemendo
De frio do ar.

Corpo em Mente

corpo e mente - corpo é mente - corpo em mente - corpo não mente - corpo - não mente

Silêncio

Há sempre uma disputa, o exercício de poder, seja ele explícito ou não. Há a tentativa de minimizar, ou ridicularizar os sentimentos, as ideias, as palavras do outro. E há a imposição do silêncio, que mata sem fazer barulho algum, de vez em quando encontrando como cúmplice o estereótipo – fulano é assim – que, numa falsa ironia, carimba na pessoa um rótulo, do qual, uma vez carimbado, o impede do livre expressar-se. Uma vez que já se sabe nome e sobrenome do sujeito (o que ele faz, para que serve), que espaço tem o pobre dito cujo para dizer, redizer, ou desdizer quem é? Se a palavra tem poder, calar significa destituir o outro do poder, o poder divino de EXISTIR. Se o indivíduo pensa e logo existe, a palavra é a materialização desse pensar. Pensa e existe, fala e resiste... Cala-te! E morrerás. Há maneira mais vil de retirar o poder de existir do outro do que dizer por ele quem ele de fato é? E que constrangedor ser diferente do que dizem que somos, por respeito à imagem construída por nós mesmos. Ou não. Quem detém o poder sobre a imagem, quem projeta, ou quem interpreta? E nessa disputa vamos falando e calando, pensando que apenas por olhar enxergamos a subjetividade nas imagens, a alma nos corpos, confundindo cegamente fotografia com paisagem. Onde reside a vida existe a mudança, sendo assim nenhum registro pode descrever com autenticidade nenhum ser humano, e a ele, somente a ele, cabe o poder de descrever-se e reescrever-se, usufruindo do direito inerente e permanente da transformação.